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BRINCADEIRA SÉRIA

Brinquei de boneca até os 13 anos, enquanto muitas amigas ensaiavam namoros nas escadas do colégio. Nunca me deixei influenciar de fato pela opinião de quem tem a mesma idade, mas cresci vendo todo mundo ficar pela primeira vez aos 12 anos, começando a namorar, passando por situações dignas de romance barato. Até que era estranho no início, especialmente porque estudava em um colégio pequeno, e fui transferida para um grande, onde tive contato pela primeira vez com as experiências pseudo-adultas. Um tempo depois, já era normal.

Talvez seja este o problema. Banalizamos o fato das crianças amadurecerem muito rápido. Com 13 anos, eu era a última que brincava de bonecas; com certeza minhas amigas com ares adolescentes me consideravam infantilizada. Creio que na ânsia de serem independentes, acabam pulando fases que depois farão falta. Adiantam o que deveria surgir só depois, naturalmente. Todas nós sofríamos pressão pelo grupo, muitas cederam e tudo era feito escondido. Nenhum pai sabia que nas festinhas inocentes suas filhas pré-adolescentes estavam nos cantos com os namorados. Nenhum deveria saber que algumas, mais adiantadas ainda, estavam tendo sua primeira vez em uma brecha de oportunidade. Enquanto isso, quem tem um pouco de opinião e não se acha maduro o suficiente para ter um relacionamento, ainda mais um sério, é considerado estranho e merece considerações durante essas conversas (que sempre surgem na menor oportunidade).

Em relação ao caso da Eloá, tem o agravante que os pais acolheram o namorado. O que eu mais me lembro, de tudo, é que a primeira regra era sempre esconder dos pais. Afinal, todas sabiam muito bem que independente do quão liberais eles fossem, com certeza não iriam querer saber se existe amor, paixão, ou qualquer uma dessas palavrinhas muitas vezes ditas, poucas vezes sinceras. Especialmente se fosse alguém muito mais velho. Tem uma centena de agravantes no caso da Eloá, tantos outros fatos para eu ter passado um bom tempo da minha adolescência sozinha. Existem mil circustâncias para tudo. O único fato é que toda essa pressão que somos submetidos é muito injusta, e pior, cada vez mais cedo. Díficil não ceder, mais ainda mostrar como isso é errado. Porque no afã de estar inserido no grupo, muitos fazem qualquer coisa, e nessa de qualquer coisa, o arrependimento é praticamente inevitável.

- Pauta do TDB.

"Parece que colocaram dez gatos dentro de um saco e começaram a bater no saco.", adorei! HAHA. :D

12h05 AM

FAZER ACONTECER

Além da calcinha colorida, das uvas, das lentilhas e de fazer qualquer coisa legal na virada do ano novo, minha lista de resoluções está sempre pronta, com diversos itens, e guardada em um lugar seguro. Se funciona? Depende muito, se as resoluções não forem absurdas e se tiver um esforço pessoal para realizá-las. Faz uns cinco anos que crio minhas listas, e admito que normalmente chegava em dezembro e eu só picotava o papel e jogava fora. Minhas vontades mudavam durante o ano, então era irrelevante. No entanto, ano passado e este ano tenho conseguido conquistar a maioria das coisas que escrevo. Algumas delas, claro, é pura sorte ou bons momentos, como os livros, roupas e sapatos que ganhei. Outras, no entanto, necessitaram do meu esforço. Por exemplo, conseguir estudar em um dos melhores cursinhos da cidade (com desconto), começar a namorar (embora o esforço não tenha sido todo meu, é claro) e inclusive entrar na equipe do Tudo de Blog, algo que eu queria muito. Não é mágica; para poder ter o prazer de riscar cada irem da listinha que fazemos para o ano, é preciso determinação e um pouco de acaso.

- Pauta para a Capricho.

Porém ninguém perguntou se as resoluções de meio de ano funcionam. Pois é, normalmente não. :D Dessa lista, só risquei a camiseta do Bite Me e o New Moon. Pf!

08h09 PM

MAIS PERFEITO QUE VOCÊ

Meu lado Sara Sidle faz com que eu seja altamente auto-destrutiva. Comparações são eternamente inevitáveis. Na maior parte do tempo, arrebito meu nariz e digo que sou diferente e muito boa ("pais liberais tem filhos gays." "minha mãe é liberal, e eu não sou gay. acho. oi Janine. {pisca}" HAHA :D). Fiz isso por muito tempo na minha vida, vendo beleza na diferença entre minha atitude e a das outras pessoas na minha idade. Afinal de contas, não é porque todo mundo ficou com cinquenta e poucas pessoas durante a vida que isto é certo para mim. E tenho direito de usar as roupas que eu quiser, e preferir um bom livro à sair de noite. Só para citar algumas diferenças, existem outras milhões delas. Agora, tanto tempo depois, estou na vida quase normal de adolescente, namorando (ainda que, certo, ele seja o primeiro namorado, de já bons 7 meses) lutando por uma vaga na faculdade que quero e vivendo a vida de quase-18. Então minhas comparações começam a servir para algo, e toda aquela beleza romântica da diferença... bem, sumiu.

Pior, pior mesmo, é arrebitar o nariz pra ser obrigado a olhar para baixo depois. Posso escrever muito, mas não sou um gênio literário, que merecia um prêmio. Mereço ser publicada às vezes, com alguma edição. Poucas redações minhas tiraram 10, e nenhuma foi muito elogiada; só boa, dentro da proposta, etc. Escrevo por vício e por amor à escrever o que é impossível ser dito em voz alta. Vou ter que amadurecer muito até conseguir escrever um livro, ou pelo menos começar. Inclusive melhorar o vocabulário, porque mesmo Graciliano Ramos, que disse que as palavras não foram feitas para brilhar como ouro falso, escreveu obras consideradas perfeitas. Não foi me dado o dom da rima, e grande parte do que eu escrevo é focado em mim mesma. Só para citar uns problemas, ignorando os muitos erros de sintaxe e eventuais de ortografia. Ainda assim escrevo, e com o narizinho arrebitado por isso, fui obrigada a reconhecer que minhas muitas palavras são pedras toscas, perto de puros diamantes. Nem ao menos estou me referindo à um escritor qualquer; é puramente uma pessoa comum que molda as palavras como se elas fossem massa de modelar, e não como eu que jogo todas em um saquinho e tiro sem ordem alguma. Não é inveja - inveja bacana eu tenho da Clarice, do Drummond, do Bandeira -, é pura derrota.

Se não bastasse, a mesma pessoa das palavras perfeitas também tem a aparência perfeita, e as opiniões e gostos de alguém que conhece o mundo. Aparência é sempre golpe baixo: não é segredo algum que eu, embora goste, não amo como aparento. Nem mesmo com 40 quilos eu me amaria, só iria achar outra coisa para implicar. Como se peso fosse tudo: é o cabelo que anda em uma fase revoltada, a cor desbotando, as coxas muito grandes, os braços muito grandes, e será que alguém já notou que eu não tenho pescoço? Posso estar exagerando, amanhã vou defender que está tudo lindo e eu sei fazer flexões sem apoiar os joelhos, e especialmente que minhas panturrilhas são bonitas, com aquela linha que era para ser natural, mas foi conquistada a custa de muita musculação e hoje se mantém pela dança. No entanto isso é amanhã; hoje nada está colaborando, mediante as belas fotos nos belos lugares daquele belo corpo que sustenta uma mente inteligente.

Enquanto isso, minhas opiniões - que melhoraram de rumo - ainda tem argumentos fracos, a menos que queira um conselho sobre sexo, amor e amizade, as superficialidades de sempre. Mal entendo de filosofia, política, economia, e sobre direito eu só sei que peritos são legais mas eu não gosto de vê-los em ação enquanto estou almoçando. E o que dizer dos meus gostos, se minha nova obsessão é a mesma de tantos outros milhões de adolescentes no mundo? Nada incomum, como os gostos da pessoa perfeita, que adora tudo que é cult e diferente. Sim, às vezes eu sou cult e diferente, mas é tão raro. Passo tempos grandes sem música, sem filmes e sem TV, e não surto se um livro estiver à mão. Às vezes não tenho nada e ainda assim estou feliz. Meu gosto musical é constante mas mutante, porque nunca escolhe uma banda, e Scar Tissue deve ser a única música que me emociona todas as vezes que ouço. Mesmo sendo minha música favorita, faz quase um ano que não a ouço e não sinto falta (mas da próxima vez que ouvir, sei que vou me emocionar em dobro). Filmes foram poucos durante este ano, na maioria repetidos e insistidos, por não querer arriscar nada novo. Larguei a TV às moscas, embora sinta uma falta bastante suportável de meia dúzia de seriados. Sou um clichê como leitora, e já li todas as trilogias e séries possíveis e impossíveis. Só agora ando mudando os padrões e tentando coisas novas, mas para não ser chata e parecer pseudo-intelectual, não comento que ando variando entre Danton Trevisan e poetas modernistas.

Então encontro essa pessoa que berra "sou mais perfeita que você" em cada ínfimo aspecto da vida, e sou obrigada a recolher minhas glórias pequeninas e procurar outro sol. O problema é que fui encontrar essa pessoa tapando exatamente uma das partes necessárias para o funcionamento perfeito do meu universo. Tapando meu eclipse, embora meu eclipse não pareça se mover. Só que nessa situação, minha estrela brilha fraca embaixo de um astro luminoso, e não iluminado como eu. E eu me pergunto, afinal, se é possível que o todo esse brilho simplesmente entre em combustão espontânea e desapareça, ou vá procurar o próprio eclipse, onde nenhuma estrela menor vai ser obrigada a se comparar à ela, só para perceber como isto soa patético.

(Estou melhor agora, meu nariz até já está arrebitado novamente. E o astro luminoso que vá para aquele lugar, o eclipse é meu, assim como o sol e todo o resto do meu sistema solar. :D)

09h10 PM

PROCRASTINAÇÃO (SEM MODERAÇÃO)

Quando criança, gostava de tudo arrumado no meu quarto, fazia as lições de casa antecipadamente e até que me divertia nas arrumações, à menos que estivesse muito cansada, então só escondia tudo embaixo da cama. Fui crescendo e percebendo que ter preguiça é até saudável. Começou aí o feio hábito de estudar para as provas na última hora, e só fazer trabalhos com antecedência caso estes fossem legais. Só mantinha o quarto sempre arrumado, nem parecia que alguém morava ali. Com certeza, era o quarto mais organizado que um adolescente podia manter. Passou mais tempo, veio mais preguiça e mais tarefas, por consequência mais responsabilidades; virei rainha da procrastinação. Hoje em dia, se preciso sair, por exemplo, às dez da manhã, me enrolo até às 9:40 para começar a me arrumar. Fico fazendo contas para ter a menor margem de tempo do momento que estou pronta até a hora de sair; naturalmente saio atrasada várias vezes, e sou obrigada a correr (com a maior elegância possível, é claro) para onde for: jazz, cursinho, médico e até encontros com amigas e namorado. Falando nele, ele sempre diz que os meus cinco minutos não tem a duração correta, e não raro o atendo aqui totalmente descabelada e desarrumada, porque deixei para a última hora.

Certas vezes me cansa tanta correria, então deixo a preguiça de lado e faço (normalmente adiantada demais) uma tarefa que seria chata. Ler um livro que eu não gosto mas preciso, lavar a louça no meio da manhã (para ver a pia cheia novamente ao meio-dia, certo?), fazer a faxina por aqui antes do final de semana. Curiosamente, se a tarefa que adianto envolve saídas (por exemplo, começar a me arrumar para o cursinho meia hora antes), sempre consigo me atrasar pelo menos um pouco. Meu inconsciente deve pensar que, como estou adiantada, posso me enrolar pelo menos um pouco, e uma tarefa que dura cinco minutos se estende por dez. Portanto, é a mesma coisa que deixar para a última hora.

No entanto, mesmo sendo obrigada a correr por aí, e mesmo admitindo que sim, adiantar um pouco é saudável, acho que uma certa preguiça ali também é preciso. Em um mundo de corre-corre, é bom dar uma relaxada e deixar para mais tarde. Claro que, se minha preguiça deixar, abro minha Superinteressante deste mês para ler a matéria sobre procrastinação, e quem sabe conseguir bons argumentos para parar com essa vida de folga e correria, folga e correria.

- Pauta para o site do TDB.

A Super deste mês está com uma capa perfeita, obrigada. Crimes e novas investigações, surtei quando vi, continuo surtando quando olho. E é verdade, estou com preguiça de ler a matéria de procrastinação. Vou ler agora, que vergonha. :O

E viva o paradoxo da lata furada, HA. Física é tão linda (síndrome de Heraldo, "biologia é tão linda"), pena que eu não entendo quase nada {"e você, que está aí pensando 'física deve ser super legal pra quem gosta!', preste atenção pelo menos na nuvenzinha." <3}.

09h51 PM

RESPEITO (POR SI MESMO)

Perdão virou moeda de troca fácil, porque nada pior do que alguém se arrastando, deitando no chão para você passar em cima, relembrando coisas ruins. Então perdoamos um pouco irritados pelo aborrecimento. Aceitar de verdade o erro do outro é uma arte de poucos. Eu mesma, que nem sou tão ressentida assim, não consigo perdoar certas situações, e demoro muito para me normalizar diante de outras. Traição, por exemplo, é irremediável; seja de namorado, amigos, quem for. Especialmente porque demoro muito para confiar de verdade, me abrir e dizer o que penso. Confiança é um vaso frágil e bonito de cristal, e no momento em que é derrubado, posso até juntar os cacos; mas nunca será como antes. Vou acreditar, no meio das fissuras e das colagens, sempre esperando o momento da próxima traição – no caso das amizades, pois nos relacionamentos amorosos (onde felizmente nunca passei por isso!), eu teria pouco para retribuir, além das saudades de tempos melhores. Perdoar por perdoar é a mesma coisa que não dizer nada, porque o ressentimento continua ali. Temos direito de nos chatearmos com qualquer atitude ou situação, e o mesmo vale aos outros, que também se magoam (com mais freqüência que gostaríamos). Também temos direito ao nosso tempo, para digerir e poder perdoar sem receio de que, em um momento mais frágil, aquela situação que aconteceu anos atrás volte a assombrar.

- Pauta para a Capricho.

"A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida." (Vinícius de Moraes) :D

05h48 PM

SINGULAR (2)

"Sim, está mais díficil."
"E você sabe porquê." um tom peculiar entrou na voz dele.
"Posso apontar muitos motivos, e ao mesmo tempo não consigo me apegar à nenhum. São todos juntos, eu acho, e não posso fazer nada com a maioria deles."
"Muitos deles passarão sozinhos." disse ele com uma certeza tão grande que foi impossível contestar. "Você sabe que gosta de se preocupar à toa, muitas vezes. Mas não se preocupe com estes. Seja lá qual for o resultado, em breve você nem se lembrará mais da angústia. Só não faça nada muito estúpido, e tudo ficará bem."
"E aqueles que não passam sozinhos?..."
"Lamento por esses, querida. No entanto, não se culpe com eles. Nem se desespere por soluções. Você sabe que tudo melhora, não sabe?"

Sim, ela sabia. Mas era difícil acreditar nisso quando o furacão ia e vinha sem parar.

"Tenho medo da melhora. Não vai ser como antes." a resposta foi entrecortada, fraca.
"Vai ser muito parecido. Nada vai mudar tanto assim."
"Mas você sabe que certas coisas funcionam com decisões radicais. Ando simplesmente esperando pelo próximo desastre, irremediável."
"E é isto que tem te deixado dessa maneira. Lembra de quando começou a pensar assim?"
"Final do ano passado." respondeu ela, depois de um momento.
"Exato. E desde quando tem esperado coisas ruins acontecerem?"
"Desde aquele momento, embora com menos intensidade do que agora." algo parecia estar se encaixando por trás das palavras.
"Agora você está frágil, e existem certos aspectos que pioraram muito. No entanto, enquanto viver esperando algo ruim, você simplesmente estará infeliz. E este não é o modo certo de viver, sabe disso."
"Sei. Óbvio que sei."
"Não digo que você deve estar sempre radiante, mas tente ver mesmo nas mudanças o que existe de bom. Fique meio anestesiada por enquanto. Deve ser melhor."

Não havia muito mais o que ser dito. Ela respirou fundo, e ele ainda esperava pacientemente que todos os pensamentos que agora surgiam se acalmassem.

"Obrigada." disse ela, sinceramente.
"Disponha. Estou aqui para isso, acho."
"E você vai aparecer de novo? Bem, creio que você podia cantar quando eu fosse dormir."

Ele riu novamente, potencialmente divertido.

"Mas eu já estou com você nessa hora. Eu sempre estou aqui, mas nos momentos em que você pensa de verdade em mim, eu estou lá, completamente."
"Nunca cantando!"
"É, nunca cantando." disse ele, rindo um pouco mais. "Porém eu não posso fazer muito. Ouça com atenção como é a música antes, e talvez eu seja capaz de cantar para você depois disso."
"A idéia precisa estar aí, certo?"
"Certo. Não tem como eu ser perfeito sem que exista a idéia de perfeição em você."
"Mas você é real para mim."
"Sou. Sempre vou ser, a menos que você não me queira mais. Não é a toa que existe super lotação na sua imaginação."
"Eu sempre irei querer você." ela ignorou o último comentário levemente sarcástico dele.
"Então, você sabe onde sempre me achar."
"Se eu precisar..."
"Eu reapareço dessa forma. Quebrei as regras aqui, sabe. Você podia ter pensado que tinha enlouquecido e tomado atitudes drásticas. Curioso seu modo racional de lidar com a situação."
"Você adora quebrar as regras, e eu gosto de agir curiosamente."

Ele riu mais uma vez. Não havia muito mais a ser dito.

"Promete?" ela pensou, rápido, antes que ele desaparecesse.
"Prometo."

Já não havia mais voz de veludo.

Devagar, ela levantou do sofá, sentindo as mãos muito frias. Podia ser simples consequência da sala gelada, mas algo dizia a ela que era um pouco além disso. Encostou na própria bochecha devagar, enquanto ia para o quarto. E, podia jurar, ouviu uma risada espectral muito doce, que não vinha de dentro e sim de fora de sua mente.

__________

Posso até não estar escutando a voz aveludada do Edward, mas escrever já foi uma bela terapia. :) <3

07h01 PM

TODO IMAGINAÇÃO (1)

Agora a chuva caia bem devagar. As ruas já estavam encharcadas, poucas pessoas arriscavam andar por onde estava molhado. Baforando na janela, a respiração quente embaçando o vidro gelado (por algum efeito físico que ela deveria saber), ela pensava, os pensamentos perigosos que sempre acabavam em lágrimas ou em outras idéias menos ortodoxas. Porém nada havia para fazer - nada que ela quisesse - e ficar imóvel olhando a rua através do vapor era seu único desejo. Possivelmente porque já estava fazendo isso. Cantarolou a música favorita do momento, seguida pela segunda favorita, aumentando o vapor, piorando a visão, mas nada conseguia distraí-la de verdade. Abaixou a cabeça, cansada dos mesmos pensamentos que reviravam seu estômago, pensando se havia algum modo de parar com aquilo. Mais do que qualquer outra coisa, queria alguém ali. Sentia falta de alguém que a ouvisse sem julgar que ela reclamava demais, ou que suas dores eram inferiores perto de dores maiores. Alguém que se importasse¹.

Uma brisa fria passou por ela, fazendo-a contrair. Ventos frios passavam por ali o tempo todo, mas esse pareceu um assovio. Isto a fez olhar por todos os lados, sentindo um pouco de medo. "Droga, eu sempre soube que essa casa é amaldiçoada!", pensou, para logo em seguida chacoalhar a cabeça. "Não seja irracional.", murmurou com o rosto pressionado contra o vidro, sabendo que irracionalidade era um conceito que usava com frequência. E, afinal, adiantava ser racional? O mundo não era muito bom para pessoas assim. Outra brisa fria passou, outro assovio, mas ela nem se incomodou em olhar. Pelo menos até o momento em que uma voz aveludada soltou uma risadinha.

"Oh, certo, agora eu enlouqueci de vez.", ela pensou, se afastando da janela e sentando no sofá, depois de garantir que não tinha mais ninguém na sala. Vozes aveludadas? Não, isto não existia. Nenhuma voz era aveludada. Podia ser aguda ou grave, alta ou baixa, mas nunca macia. Porém aquela voz não merecia outro adjetivo, por parecer tanto um tecido leve, que acariciava seus ouvidos. "Acho que está na hora de esconder meus livros." decidiu, mas assim que recuperou o equilíbrio para levantar, a voz misteriosa reapareceu:

"Não adianta nada esconder os livros, nem excluir o que você tem no computador.". Uma pausa. "Não, nem tirar as fotos do seu quadro magnético.".

Ela sentou de novo. A voz estava claramente dentro da sua cabeça; ecoava de dentro para fora, o que dava a impressão de estar sendo murmurada. Passou rapidamente pelas opções: consultar um psiquiatra, procurar na internet como se chama o distúrbio em que pessoas ouvem vozes, pedir para ser internada, se esconder na cama por dias até a voz sumir. No entanto ela sabia que nada funcionaria. Conversar com alguém? Bem pior. E já que a voz estava ali... Não custava dar uma chance.

"Eu estou louca?" foi a primeira coisa que ela pode pensar.
"Não. Para uma pessoa observadora, você é bem obtusa às vezes."
"Obtusa? E como você chama quem ouve vozes, especialmente vozes como a sua dentro da cabeça?"
"Chamo de alguém que precisa de companhia e atenção."
"Louca e carente, leia-se."
"Só carente, garota."

Ela respirou bem fundo, procurando dar aos pulmões o máximo possível de oxigênio. Deitou-se devagar, virada contra a janela, fechando os olhos e procurando uma visão convincente dele. Não conseguiu nenhuma. Aparentemente ela continuava bem ruim para construir rostos. Porém sentia que, seja lá quem estivesse conversando (embora ela soubesse claramente de quem se tratava, mas não queria nomeá-lo. Ter amigos imaginários não era uma coisa comum em sua idade.) esperava uma resposta.

"Então você é real." não era uma pergunta.
"Para você, eu sou real. Para sua mente, especialmente. Não vivo fora daqui, e não sou o único. Porém você sempre soube disso, não?"
"Difícil dizer. Especialmente porque a sua voz é exatamente como eu imaginaria, e no entanto eu jamais a imaginei. Mas, se você está aí, com certeza devem existir outros."
"É, está bem cheio por aqui." uma risadinha, baixa.
"E por quê você está aqui?"
"Já não expliquei? Você precisa de companhia. Acho que posso servir para isso."
"Não é a primeira vez que preciso de companhia, e ainda assim é a primeira vez que ouço... ahn... um de vocês."
"Você está passando por uma fase difícil."
"Me conte outra, esta é velha." a voz dela era amargurada.
"Mas está pior, não está? Anda mais difícil."

Foi preciso um minuto antes de responder. Claro que andava pior. Claramente ele também deveria saber disso, ele estava dentro da mente dela. Mas ela percebeu que deveria pensar nisso. Andava fugindo de qualquer teoria mais perigosa.

(...)

__________

¹ Embora existam muitas pessoas que se importam de verdade, como, por exemplo, meu tão prestativo namorado, que ao ler essa quase-ficção achará que eu não o considero interessado em meus dramas da confusa realidade. É só literatura, onde a tristeza tem que ser completamente triste; e a felicidade é arrebatadora. E não, eu não ouço vozes. :D (Ainda.)

10h16 AM

DRAMA QUEEN

Admito que, às vezes, eu tenho muita vontade de me bater mesmo, de modo a calar minha própria boca. Motivo? Parece que tudo - ou praticamente tudo, 90% - que eu falo é pura reclamação. Ou implicância. Minha vida não é perfeita, e está muito longe disso. Não preciso procurar para encontrar um bocado de problemas. Porém, no meio deles existem aquelas coisas tão boas que eu, dramática, não enxergo. Um namorado tão prestativo e preocupado, ter acesso à uma boa biblioteca com livros novos, assistir aulas aonde eu aprendo de verdade e morro de rir ao mesmo tempo, ir bem nos simulados, conseguir comprar livros que eu praticamente venero, aqueles momentos leves com os meus pais, poder dançar jazz e ser boa nisso, o simples fato de acordar e não estar tão frio nem tão quente, nem estar chovendo. Só que no momento em que eu começo em uma certa linha de pensamentos - algo que deu errado ou que simplesmente pode dar errado - uma nuvem chuvosa, que nem nos desenhos, fica em cima da minha cabeça. Oh céus, oh vida, não sou feliz e nada dá certo. E isto às vezes acaba em situações constrangedoras, como choros histéricos em salas de aula e coisas assim, porque as lágrimas normalmente acompanham o drama digno de novela mexicana.

Acho que todo ser humano com um pouco de sensibilidade tem horas em que só consegue reclamar. Porém existem pessoas (como eu, ou minha mãe, e mais meia dúzia de pessoas com quem convivo) que simplesmente não tiram os lenços de papel e as reclamações de perto. Se o dia está ensolarado, droga, queria usar um casaco. Frio? Mas e meu vestido novo? São só exemplos bobos, mas que revelam algo. Compreendo muito bem que isso só acontece pelo prazer da atenção, na maioria das vezes. Em outras, ser dramática demais mostra uma saída de escape, porque tem algo mais sério por trás que deveria ser visto, mas que não está. Drama puro, certo, é chato, coloque um sorriso no rosto e tente ver as coisas boas. Dramas que revelam problemas, por sua vez, merecem um pouco de atenção nas entrelinhas. Quando os pensamentos que chamam as nuvens chuvosas aparecem, procuro puxar um pouco os cantos dos lábios, andar um pouco na rua, ler um livro bom. Nem sempre funciona, mas qualquer coisa para sair do posto de rainha do drama.

- Pauta do TDB.

Não preciso dizer nada. MORRI de vez agora. Como pode um beijo mais agarradinho do que eu imaginava me fazer simplesmente capotar? Com certeza isto segurará meu drama por dias. Muito perfeito, muito perfeito (e quero o trailer, é amanhã!). *----*

11h18 PM

QUASE HAICAI

Sempre pensei na natureza como uma força harmônica que seguisse um ritmo quase perfeito. Então descubro pela boca dos meus professores de química, física e biologia que, de fato, o universo tende ao caos. Da organização para a confusão, em tudo. E se quer saber, caos é um bom nome para minha vida agora.

(Gosto de imaginar com muita segurança que até dezembro eu estarei respirando melhor sem a pressão da Federal em cima de mim. Melhor, que essas seis semanas que faltam para a primeira fase irão passar mais calmamente do que tem sido até agora. E eu bem que queria estar andando com uma camiseta escrita Danger Magnet por aí...)

(Como se eu já não estivesse vivendo totalmente em Forks, transitando entre estar e não estar com os Cullen.)

(Iro, iiro, cada um com seu vampiro! :D Parei!)

12h09 AM

A MUDANÇA NECESSÁRIA

Criança, eu já era muito maior que meus amigos. Não tenho muitas lembranças daquela época, só de sempre me sentir mal junto aos outros, e dos apelidos maldosos que eventualmente me davam. Não liguei para a aparência por um longo período, até chegar na pré-adolescência, com os hormônios mexendo nas relações e nos corpos de todos a minha volta; e menos perceptivelmente em mim. Percebi, então, que como você é por fora costuma contar mais do que é por dentro. Neste momento, minha auto-estima começou a cavar o próprio poço. Me via do lado de minhas amigas no espelho, e elas eram magras, lindas e suas roupas somente ressaltavam isso, enquanto eu era seguramente o dobro delas, e tudo o que eu vestia estava pequeno demais. Todos os anos prometia que iria fazer dieta, e em todos os finais de ano passava tempos me olhando no espelho, pensando em nos namorados que minhas amigas haviam conquistado, as festas que tinham ido, as roupas novas que tinham comprado. Um dia, finalmente cansei de sentir pena de mim mesma, e emagrecer foi meu objetivo e minha vida por um ano completo. Escorreguei muitas vezes, mas também eliminei alguns quilos, o suficiente para me olhar no espelho e parar de me achar tão terrível. Os exercícios foram com certeza a melhor parte, porque além de focarem na beleza do meu corpo, que eu nunca via, também melhoraram minha saúde. Pude finalmente comprar as roupas que me valorizam, e parar de me ver como inferior perto de todas aquelas que antes me intimidavam - inclusive porque elas também não são perfeitas. Hoje, dois anos depois daquela decisão, ainda há muitas vezes em que acordo pensando que estou engordando, que logo estarei como antes. Minha auto-estima, depois de tanto sofrer com meu peso, hoje é traiçoeira. Porém eu procuro a ignorar, e continuar seguindo a rotina quase saudável que escolhi, procurando não exagerar nas calorias diárias, sempre fazendo meus cálculos de quanto como por quanto gasto. Alguns me dizem que ficar contando tudo que como não é o jeito certo de viver; bem, para mim é. Porque só quem sofreu e se isolou do mundo durante anos entende a importância que aqueles quilos a mais na balança representam.

- Pauta para a Capricho.

Certo, a pauta ficou o dobro do que deveria. Mas esse é um dos assuntos mais delicados. Porque meu peso e aparência afetaram muito minha auto-estima, com reflexos que eu duvido que desapareçam tão cedo. Isto me impediu de ser "normal" por quase cinco anos; e eu sei que há muita gente que sofre à muito mais tempo. Obesidade não é preguiça, e sim uma doença, especialmente quando afeta alguém a ponto de transformá-la. Não é a toa que existem tantos anoréxicos e bulímicos por aí. Não mesmo.

E eu sei, eu sei, comentários atrasados. Paciência, eu respondo alguma hora. Vida ocupada e bem, preguiça, me impede de cumprir com minhas obrigações no universo virtual. Sorry about that.

01h11 AM