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A VITRINE

- Eu quero me separar.

Ela o fitou com um olhar vazio, esperando a piada sem graça seguida dessa, e já repetida até a exaustão. Porém, o olhar que a analisava era frio e estranho. Um formigamento começou na ponta dos dedos, um arrepio incômodo. Tentou sorrir, mas não houve nem uma sombra de mudança no rosto dele. Em segundos pensou na vida que haviam tido até ali: três anos, algumas conquistas, a vida acontecendo sem grandes distúrbios mas sem grandes surpresas. Uma trajetória linear, contrariando a lógica de Drummond. Ele insistiu na afirmação, vendo o silêncio dela. Perguntas passaram na velocidade da luz; ele parecia sempre tão correto. Sem ciúmes, sem desconfianças, eles eram sempre os mesmos. Confiavam em tudo, desde decisões sérias à banalidades. Ela abriu um pouco mais os olhos, porém sem chorar. De repente, fazia sentido. A vida, sempre tão boa, era cinza. Até mesmo os bons acontecimentos eram planejados. Procuraram tanto a estabilidade que esta os sufocou.

- Você tem para onde ir?
- Tenho.
- Então pode ir.
____

Para os amigos, ele estava viajando. Eram usados como exemplo de casal perfeito. Três anos sem brigas, vivendo bem, já haviam comprado um apartamento juntos. Toda vez que alguém mencionava o suposto relacionamento ideal, ela apertava os lábios até sentir os olhos encherem de lágrimas. Não se falavam desde que ele cruzou a porta com uma mala grande, contendo somente as roupas e alguns sapatos. Ela tinha certeza que ele deveria estar com outra pessoa, mas tinha medo da confirmação. Se ele queria terminar, então seria para sempre.
____

Assim que pode, ela foi embora. Trocou de email, telefone, país. Aproveitou que o trabalho a dava mobilidade; escolheu Paris. Porém, mesmo dois anos depois, ela não voltou a ser quem era. Tinha certeza que jamais voltaria a sorrir, a ter outro homem na sua vida, na sua intimidade, na sua casa. Andava pelas ruas da cidade do amor com o olhar frio. Ia do trabalho para casa sem interrupções, fazia as compras à noite. Não tinha amigos. Já não sabia mais quem era, mas não queria perder tempo procurando e revirando um passado decepcionante e confuso. O tempo trouxe novas reflexões, que foi escondendo dentro de si. Tudo que esperava era que, um dia, algo acontecesse para tirá-la da imobilidade.
____

Aconteceu. Parada na frente de uma vitrine, ela acompanhava o jogo do Brasil. Televisões grandes e pequenas empilhadas, todas no mesmo canal. Nenhum pedestre acompanhava; a chuva desestimulava a aglomeração. Sentiu uma aproximação à sua esquerda, e não precisou de tempo para descobrir que, mesmo longe de casa, dos amigos e de si mesma, o destino fez questão de um capricho.

- Belos sapatos.

Ela bateu um pé no chão, respingando algumas gotas de água no tecido vermelho-vivo. Olhou para rosto dele através do vidro da vitrine, sem se virar. Ele parecia mais velho, como se dez anos tivessem passado em dois. E, surpreendentemente, ela não sentia o coração disparado ou as mãos geladas. Era para acontecer. Arriscou um comentário.

- Você não gostava de futebol.
- Se está entre homens, faça como eles. Você não gostava de sapatos de salto.
- Se está na França, seja como as francesas.

Os dois se olharam. Eram os mesmos de quando se conheceram, enxergando o mundo colorido e injusto: ele pela escolha, ela porque foi obrigada. Ele sorriu, talvez satisfeito por ver as mudanças que imperavam nela. Ela arriscou um meio sorriso, como se soubesse de algo que ele jamais chegaria a conhecer. Olhou para a TV novamente, e então para um relógio através da vitrine.

- Tenho que ir.
- Nos veremos por aí?
- Talvez.

Ele sorriu ainda mais, enquanto via ela indo embora. E, finalmente, ela era a mulher da vida dele.
____ ...

(e torçam para que meu professor de Literatura não empreste "Um Amor Anarquista" pra ninguém até semana que vem. :] Quero tanto ler esse livro, droga.) (e estou com a musiquinha do desenho do Pato Donald nazista. Musiquinha viciante do mal. :D)

10h35 PM

REHAB

Não sei exatamente o que leva alguém para as drogas: talvez a curiosidade, o cansaço da rotina ou a vontade invisível de sair da realidade. Acontece que existem tantos lados ruins para poucos bons. Talvez a maconha não vicie, mas quem pode garantir que a sensação não irá agradar ao corpo, exigindo mais experiências? Um dia o corpo que exige, falha, e já é muito tarde. Um fator que facilita e aumenta o consumo é a disponibilidade: em festas, na rua, dentro de casa. Todas as pessoas tem momentos auto-destrutivos, especialmente na adolescência; e é muito mais difícil resistir se é só estender a mão. Não acredito que exista um nível de consumo que não traga consequências, nem que não tem problema experimentar uma vez. É só pensar um pouco: pode ser que não vá acontecer nada. Porém a chance de algo dar errado é grande. Não sei se eu sou medrosa ou consciente: seja como for, não quero gastar meu dinheiro em drogas e reabilitações para voltar a ser alguém que eu já era em primeiro lugar.

- Pauta da Capricho.

06h24 PM

AFASTAR E AMADURECER

Eu estava na sexta série e era uma pequena criança nerd e excluída. Era meu segundo ano no colégio, e eu ainda não tinha amigos, graças a timidez excessiva que impedia minha socialização. Um dia, minha professora disse para formamos duplas, e para meu desespero, todos se juntaram com os amigos próximos. Então, a professora (que por sinal eu não gostava nem um pouco), disse para eu me juntar com a dupla mais próxima, de duas garotas risonhas. Ao final da aula, estavamos rindo de tudo: do exercício, da nossa dupla de três, dos outros.

Fiquei amiga do resto da sala, mas mantinha as duas por perto. Elas eram grandes amigas, e, aos olhos de uma delas eu estava atrapalhando a intimidade. A implicância me irritou, e em um ato incorreto, afastei uma da outra. Me aproximei da Daiane, e para a Ana eu era a grande vilã e a criadora de intrigas; não gostavamos uma da outra. O tempo me aproximou ainda mais da Daia, e o que era uma simples disputa de território, depois de quatro anos, virou a maior amizade que eu já tive com alguém. Eramos tão diferentes, mas nos compreendíamos. Eu era quieta, não chamava a atenção, me apaixonava e sofria durante meses, sem jamais encostar um dedo no alvo do meu amor. Ela falava muito, os garotos a paqueravam na rua e trocava de ficantes de tal maneira que eu mal acompanhava. Eu a invejava, mas ao mesmo tempo me orgulhava. Adorava dar conselhos, mesmo que só teóricos, e adorava todas as piadinhas internas. Finalmente sentia que tinha uma melhor amiga, alguém em que eu pudesse confiar de olhos fechados, que estaria do meu lado para sempre.

Porém, a vida virou tudo de cabeça para baixo. No último ano de colégio, nossa amizade estava abalada. Mudei muito nas férias, e ela não participou de nada. Ao mesmo tempo, ela amadureceu em campos que não estavam mais dentro dos meus conhecimentos*. Voltamos para o colégio, ambas dispostas a descobrir o mundo da própria maneira. Isso nos confrontou - e em um dia qualquer, por besteira, paramos de nos falar de vez. Até hoje não compreendi direito as razões dela, embora tenha entendido depois que certos males vem para o bem. Nossa amizade nos sufocava e impedia outros de se aproximarem, e nossas diferenças se transformaram em abismos. Sem ela, conheci muitas pessoas, pude perdoar outras, cresci e me entendi. Não vou dizer que não iria poder fazer isso com ela, mas o impacto de estar sozinha precipitou algo necessário.

Então, do mesmo modo, em um dia qualquer, depois de meses, ela conversou comigo como se nada tivesse acontecido. Eu também não perguntei nada - não precisava mais. Nossa amizade não voltou a ser o que era, nem acho que possa: já não somos mais as mesmas garotas que faziam piada de tudo e todos. Mas às vezes conversamos, e ela tem um interesse sincero sobre assuntos que somente eu dou importância. O passado nos une, e o presente reflete isto. Nossa amizade não foi perda de tempo - além dos anos, além das memórias, e muito além dos ressentimentos, de um modo súbito ela me fez amadurecer. E, graças a ela, as amizades que tenho hoje são melhores e saudáveis.

Pauta para o site do TDB.

* modo bonito de dizer tal coisa. Para bom entendedor, mei pala bas. :D

Gente, não acredito que fui publicada na Capricho dessa quinzena. Alguém acredita que estou lá com meu esmalte laranja e cabelo bagunçado? (e, importante dizer! A Ana, que foi a pobre garota que sofreu com minha maldade e que eu citei lá em cima, hoje é uma grande amiga. Sem ressentimentos mesmo. <3)

08h29 PM

CRESCER (INFINITIVO)

Escrever era tão necessário quanto respirar. Porém não era escrever qualquer coisa. À três anos e meio atrás, só me sentia viva escrevendo na agenda. Todos os dias tinha um comentário sobre qualquer coisa - um novo episódio de Dawson's Creek, um momento engraçado na escola, qualquer coisa positiva que me fizesse dar risada. Claro que às vezes não conseguia só me expressar de maneira otimista, especialmente pela época em que me encontrava. Mas escrever tais coisas davam a sensação de que meus dias eram ocupados, que minha vida não era vazia e que os problemas se resolviam facilmente. Desconsiderava o tempo gasto para passar ao papel tantas banalidades, e que preferia ser sozinha, e cada vez mais reclusa em meus próprios gostos e em minha própria mente (que não é o melhor lar do mundo).

No ano seguinte, um pouco melhor depois da crise adolescente, continuei escrevendo. Quase com o mesmo objetivo de antes, mas com novos assuntos. Uma vez ou outra entravam comentários sobre minha limitada vida social/amorosa. Já não era tão sozinha, embora preferisse minha própria companhia. Passar por situações novas criavam a vontade de conviver mais com meus amigos. Ao mesmo tempo me impeliam novamente à mim mesma. Entre comentários em espanhol e relatos de visitas a cidades próximas, mudei a maneira de pensar sobre minha relação com os outros, e a velha máxima de "nenhum homem é uma ilha" começou a fazer sentido.

Continuei escrevendo no ano seguinte. Não mais sobre episódios, atores ou filmes, mas sobre minha rotina. Todos os dias descobria algo novo sobre mim - tanto no corpo quanto na mente - e os reflexos se expandiam às minhas relações. Parei com meus pacs de episódios, passando horas deitada; ganhei meus perfect days (quatro, todos em minha mente quase integralmente), e parei de escrever como o mundo fosse perfeito. Ter problemas é humano, e passar por eles ainda mais. Cada detalhe, cada sorriso, cada lágrima estavam ali. Ler depois não era uma tortura: era um exercício de reflexão. E mesmo pensando "que criança!", aprendia com minhas próprias palavras.

Naturalmente, comprei uma agenda esse ano. Queria continuar escrevendo, em um processo infinito de auto-conhecimento que renderia risadas depois de muitos anos. Aquela coisa dos filhos lendo, descobrindo que a mãe já foi uma nerd (embora tal definição já não se aplique em sua totalidade). Porém, fazem meses que já não encosto nas folhas cor-de-rosa. Mal escrevi, na realidade. Existem motivos para tal: como aqui, que, querendo ou não, serve para a mesma função da agenda de papel. Já não tenho tempo para pensar e escrever lá; exige dedicação, e essa é aplicada de maneira mais útil agora. Ao mesmo tempo que ocorrem mil fatos, todos já são comuns, e os que não são, não merecem sua réplica no papel. Não por serem ruins - mas existem tantos sentimentos e momentos no mundo que não podem ser descritos em palavras. Mas, especialmente, porque o que foi inicialmente descrito já não condiz com a realidade. Nos anos passados existia algo concreto: algo é de tal maneira porque essa é a maneira dele de ser. Se sentia algo, o sentimento se bastava. Se acontecia algo, o acontecimento se bastava completamente. Não existiam motivos, e tudo era imutável. Porém tudo o que aconteceu até agora nesse ano me mostrou que sentimentos podem mudar, que não existe ordem para nada, que existem tantas coisas que tem na sua explicação uma longa história, sendo que tais histórias poderiam não ter acontecido. E não consigo escrever com precisão esse sentimento, nem posso utilizar páginas que, antes, abrigavam pensamentos inflexíveis. É como se uma outra pessoa estivesse naquelas linhas, e eu estivesse aqui, livre para ser e viver o que eu quiser.

Se isso não é crescer, juro que não sei o que é.

(e só posso resumir a apresentação de jazz em fo-da. *-* Acho que ela (e meus pais e minha metáfora favorita <3, que foram prestigiar meu momento Napoleão fazendo yoga) que me inspiraram hoje. Hê. \o/)

01h06 AM